texto: roberta federico

Impactos do racismo na infância de crianças negras e estratégias de intervenção

19 de junho de 2011

Um aspecto que não deve ser ignorado são os efeitos que o racismo e a discriminação racial têm na infância de crianças negras. É nessa etapa de desenvolvimento em que os valores são absorvidos com mais intensidade e também onde os estereótipos raciais vão sendo sedimentados. É preciso atentar para situações onde a criança se mostra muito tímida ou, especialmente no caso dos meninos, quando costumam brigar com frequência na escola. Muitas vezes essas brigas têm como ponto de partida agressões racistas que não são levadas à sério pois os profissionais de educação entendem a violência física como um problema mais grave que o racismo, ignorando as causas que motivaram a briga. Em resposta à esta omissão, a criança deixa de se sentir amparada pela instituição e inicia um ciclo de situações de violência, terminando por ficar estigmatizada como "criança problema".

Outro ponto importante a ser levado em conta é a negação dos próprios atributos físicos como cabelos, pele e nariz. Meninas que, ainda na primeira infância, insistem para que suas mães às levem para salões de beleza e alisem seus cabelos antes mesmo de estarem com o organismo preparado para lidar com um tratamento químico tão agressivo; crianças que negam a própria negritude explicitamente, num exercício de distorção da auto-imagem; ou ainda as que rejeitam a própria família devido à vergonha da aparência de seus membros.

Em grande parte dos casos, os pais ou responsáveis ficam desorientados quanto à melhor forma de agir, pois afirmam desconhecer qual a origem destes comportamentos, uma vez que não acontecem atitudes racistas dentro do ambiente de convivência com a criança. As crianças reproduzem o que vêm no meio social, seja de maneira explícita ou velada. De fato, não é preciso que se diga explicitamente para uma criança que as pessoas negras têm menos valor que as pessoas brancas para que ela absorva essa ideia. Basta colocá-la diariamente diante de qualquer canal de TV brasileira, onde dificilmente ela se verá representada de maneira positiva. Nas poucas vezes em que ela vir imagens de pessoas negras, serão em noticiários sobre pobreza, tragédias, violência e crime. Acrescente à isso os cuidados pessoais com produtos cujos garotos e garotas-propaganda são bebês louros, ou ainda brinquedos e jogos onde os personagens infantis do momento sejam quase em sua totalidade brancos. Após algum tempo nestas condições, não é de se estranhar que a criança diga que preferia ter nascido branca. E esse tipo de relato não é raro.

Algumas atitudes podem ser tomadas para que a criança retome um desenvolvimento sadio. Uma delas é conversar abertamente sobre o assunto, mantendo uma linguagem acessível ao entendimento da criança. Um dos motivos que mantém as relações raciais tão tensas no Brasil é o silenciamento diante do tema. Logo, poder conversar desde cedo sobre o assunto é algo muito valoroso. Outra recomendação importante é buscar representações positivas de pessoas negras para apresentar às crianças. Pesquisando em sites de países mais desenvolvidos nessa discussão, não é difícil encontrar até mesmo famílias inteiras de personagens infantis negros. Essas representações podem estar nas embalagens de brinquedos, nas roupas, em desenhos animados, filmes, produtos de higiene pessoal, etc. Adianto o quanto será difícil encontrar este tipo de produto. Uma outra abordagem, bem mais viável, seria a visualização frequente de fotos de família, e fotos da própria criança, que podem estar em exposição pela casa. Apontar as qualidades dos atributos físicos da criança, ensinando-a a se ver bela e a ver beleza em outras pessoas negras. E por fim, sugiro a contação de histórias verídicas ou adaptadas, onde a criança possa conhecer mais sobre sua história, a de sua família e a de seu povo.

À medida em que tomarmos consciência do tamanho da ausência de representações positivas de pessoas negras de maneira geral, entenderemos a intensidade com que o antídoto anti-racista deve ser aplicado. Uma história muito bonita de lutas tem sido invisibilizada ao longo dos tempos e nosso desafio é apresentar às crianças coisas que nós mesmos não tivemos acesso e estamos conhecendo no tempo presente.




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